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Cabês vê no hip-hop um caminho para transformar realidades e inspirar mudanças coletivas

há 2 horas
3 min de leitura

Em um álbum sobre amadurecimento e transformação, Cabês reflete sobre o legado do hip-hop e as possibilidades de construir novos futuros coletivamente.


Cabês. Fotografia: Gustavo Sena.
Cabês. Fotografia: Gustavo Sena.

Depois de quase uma década sem lançar um álbum autoral, Cabês retorna à própria discografia com ‘Ciclos’, seu quinto trabalho de estúdio. Construído ao longo de quase três anos, o disco reúne 12 faixas escolhidas após um longo processo que chegou a reunir 60 composições. 


Como produtor musical e engenheiro de som, Cabês construiu uma trajetória marcada por colaborações com nomes como Karol Conká, Yago Oproprio, Coruja BC1, Rapadura, Lívia Cruz, Zudizilla, Matéria Prima e Max B.O. Após mais de 25 anos de vivência no hip-hop, o artista chega a uma nova fase da carreira com o álbum ‘Ciclos’. Em entrevista ao eolor, ele fala sobre o lançamento, o amadurecimento artístico e suas reflexões sobre o papel do hip-hop como ferramenta de transformação coletiva. “Foram 3 anos construindo CICLOS, com muitas peneiras musicais até ficar as 12 faixas que encontramos no álbum, que refletem essa evolução e transformação das ideias do jovem Cabês lá de Curitiba, num artista mais amadurecido e lapidado na correria de São Paulo”, conta.


A mudança de Curitiba para São Paulo, em 2018, foi decisiva para a concepção do projeto. Ao se estabelecer na capital paulista, Cabês colocou temporariamente os lançamentos como MC em segundo plano para consolidar sua carreira como produtor musical, trabalhando com centenas de artistas.  "Um dia esse chão que passamos, já foi de barro e alguém pavimentou, e por isso precisamos honrar esse passado para que tenhamos habilidade de construir um futuro coerente com essa caminhada", defende o artista.


Cabês vê no hip-hop um caminho para transformar realidades e inspirar mudanças coletivas.
Cabês. Fotografia: Gustavo Sena.

"Acho super válido termos diversas sonoridades mesmo sob o guarda-chuva Hip-Hop para lembrar que, reunir pessoas, fazer festa e consumir cultura periférica e marginal também é um ato político”, diz Cabês.

A experiência também levou o artista a revisitar as próprias origens e a compreender o lugar que ocupa na cultura hip-hop. Musicalmente, ‘Ciclos’ retoma o boom bap que marcou seu álbum de estreia, ‘Todo Dia É Assim’ (2009), com a presença de DJs e scratches, além de explorar outras sonoridades, como o R&B em ‘Olhos nos Olhos’. “Eu quis voltar para a essência. Vim do skate, conheci o hip-hop na rua, passei pelo break, pelo graffiti e depois cheguei ao rap e à produção musical. Tudo isso formou a maneira como eu enxergo a música”, explica. O disco também reúne parceiros de diferentes momentos de sua caminhada, como Rashid, Matéria Prima, Bianca Hoffmann, Jamah, DJ Marco e DJ Vitonez, além de produtores como Nave Beatz, Skeeter Beats e Lemoskine.


A valorização da memória atravessa o trabalho de Cabês, que destaca a importância de reconhecer as gerações que abriram caminhos antes da chegada dos novos artistas. “A vivência de estrada, estar na rua, o momento offline constrói muita experiência que você jamais teria apenas vivendo no ‘online’”, observa. “A gente tem a impressão de que a vida acontece em linha reta, mas eu enxergo muito mais como uma espiral”.



A profundidade do hip-hop em tempos de consumo acelerado


Foi observando as transformações do rap que Cabês identificou mudanças nas temáticas influenciadas pelo comportamento humano, pelas condições sociais e pelas experiências coletivas. “Percebi que havia um espaço para aprofundar ideias, falar de coisas um pouco mais introspectivas, refletir um pouco no nosso próprio comportamento humano e de relembrar quem somos, enquanto humanos em evolução e também como sociedade que precisa caminhar junto para sobreviver”, afirma. 


O rapper acredita que letras densas e politizadas continuam encontrando público. Ele cita BK’, Djonga e Emicida como exemplos dessa força. “Existe ainda muita força em letras densas e politizadas, podemos ver isso no show do BK recente lotando o estádio, ou do Djonga e Emicida fazendo tour Brasil afora. Tudo tem seu momento também, e acho super válido termos diversas sonoridades mesmo sob o guarda-chuva Hip-Hop para lembrar que, reunir pessoas, fazer festa e consumir cultura periférica e marginal também é um ato político”, destaca.



‘Ciclos’ representa a maneira como Cabês reorganiza sua história e transforma as experiências acumuladas em novas possibilidades artísticas. Entre a memória de quem pavimentou o caminho, as parcerias construídas ao longo dos anos e os desafios de uma indústria cada vez mais acelerada, o rapper reafirma seu compromisso com a música e com o desenvolvimento coletivo da cultura.


“Talvez eu tenha entendido que não vou salvar o mundo inteiro, mas posso transformar o meu mundo imediato e estimular quem está perto de mim a fazer o mesmo”, finaliza. 


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