Explicando "Don't Hurt Yourself" da Beyoncé!
- eolor

- 16 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de abr.
Como Beyoncé trabalhou a ira, o auto conhecimento, o empoderamento feminino e o conceito dos "dois mundos" no vídeo!

(Fotos: Reprodução/ Parkwood Entertainment)
Quem leu o artigo sobre o capítulo dois, com “Hold Up”, percebeu que a personagem encerra o vídeo acertando um taco de basebol no seu ex-amor (Jay-Z). Em seguida, a personagem passa a caminhar sobre vários carros e, nesse momento, tem início o capítulo três de Lemonade, intitulado “Anger” (Raiva), ao som de “Don’t Hurt Yourself”.
É importante lembrar mais uma vez aqui, que o “Lemonade” é uma obra áudio visual que mescla fatos do passado e do presente, de forma a construir uma narrativa sob a perspectiva de quem assiste, por isso temos o contraste de vestimentas clássicas e modernas em muitos momentos da obra. O terceiro capítulo se inicia, seguindo com o poema de Warsan Shire sobre a “troca de pele” e o mundo criado por Beyoncé em seu momento de raiva ("Anger", título do capítulo em questão). Enquanto o poema é recitado, cenas nos levam a entender mais uma vez, que o local onde tudo acontece, se passa em Nova Orleans. Um culto também começa a ser descrito em preto e branco.

Ao longo do poema, a personagem que, descobre a traição, passa por um momento de entendimento próprio e questionamento do “porque você escolheu ela e não a mim?”. Através de frases fortes como “eu posso usar a pele dela sobre a minha”, essa personagem (Beyoncé) TENTA se refazer nos moldes de outra mulher. Há quem diga aqui, que, essa troca de pele, seja reflexo de uma mulher mais CLARA que a Beyoncé e com características brancas, a descrita “Becky”.
"Se isso for o que você realmente quer, eu posso vestir a pele dela sobre a minha, o cabelo dela sobre o meu, posso fazer as mãos dela como luvas, os dentes dela como confetes. Posso usar o couro cabeludo dela como boné."

A personagem segue com o poema, enquanto cenas do estacionamento são mescladas com momentos EM PRETO E BRANCO de um culto, entre mulheres, sendo realizado. Aqui, pode ser feita a análise, sobre a criação da mulher do outro mundo, dentro da perspectiva de uma amante que foi traída. É a TENTATIVA de se colocar sobre a pele de outra mulher. As constantes cenas do estacionamento em câmera lenta são o reflexo da mente da personagem, como se estivéssemos passeando pelos pensamentos dela. Confusa, perdida e tentando se encontrar em meio ao caos dessa identidade. A eterna dúvida desse capítulo: tentar se moldar ou seguir em frente?

“Porque você não consegue me ver? Todo mundo consegue!”. A frase final do poema funciona como gatilho para o início da música, que já apresenta a personagem vestindo um casaco de chinchila, posicionada ao lado de um carro.
Nesse ponto, cabe uma leitura interessante: Beyoncé já havia utilizado um casaco semelhante em 2003, no clipe de “Crazy in Love”, sua estreia solo ao lado de Jay-Z. Na faixa, o rapper inclusive menciona “my texture is the best from chinchilla”, reforçando esse imaginário de luxo e poder. Ao revisitar esse elemento em Lemonade, a obra cria um diálogo visual com o passado. Basta observar o clipe de “Crazy in Love” para notar paralelos claros, como a presença do carro, do fogo e de um ambiente estético muito próximo ao de “Don’t Hurt Yourself”, sugerindo uma releitura simbólica da própria trajetória e da relação construída ao longo dos anos.

Dada essa breve referência a “Crazy in Love” e à simbologia da pele, retornamos a “Don’t Hurt Yourself”. A faixa se inicia com um sample marcante de Led Zeppelin e estabelece um tom agressivo, quase confrontacional, que sustenta toda a narrativa. Aqui, Beyoncé constrói uma reflexão direta: toda a energia que se entrega ao mundo retorna como um espelho, e, no contexto da canção, isso se traduz na frustração de mulheres que se dedicam intensamente a alguém ou a uma relação sem receber o mesmo valor em troca.
O vídeo acompanha essa virada de postura, com a personagem se afirmando e reivindicando sua independência. Há uma ruptura clara com a figura anterior, como se aquela mulher moldada pelas expectativas do outro deixasse de existir. A dualidade se torna evidente na linguagem visual: as cenas em preto e branco refletem insegurança, confusão e perda de identidade, enquanto a personagem em cores assume controle, estabelece limites e declara que não aceitará mais ser traída, reforçando sua autonomia e poder. É nesse momento que a obra insere um discurso de Malcolm X, intercalado com imagens de mulheres negras, ampliando o sentido da narrativa individual para uma dimensão coletiva e política, em que autoestima, resistência e valorização se tornam centrais.
“A pessoa mais negligenciada, desprotegida e desrespeitada na América é a mulher negra.”
Esse momento reforça que toda a mensagem de Lemonade está profundamente conectada à comunidade negra, especialmente às mulheres. Após o discurso de Malcolm X, a personagem surge de forma direta, afirmando que não irá tolerar outra traição. A cena emblemática em que Beyoncé declara “GOD IS GOD AND I AM NOT” (“Deus é Deus e eu não sou”) funciona como uma síntese poderosa: Deus pode perdoar, mas ela, enquanto mulher ferida, estabelece seus próprios limites. Ao mesmo tempo, a frase também a humaniza, afastando qualquer leitura de perfeição ou submissão absoluta.
No desfecho, a personagem em preto e branco “morre”, ao menos no plano simbólico. Ela representa uma versão fragilizada, que funcionava como válvula de escape emocional, e sua ruptura é marcada por um gesto definitivo: a retirada do anel de noivado. Essa morte interna abre caminho para o capítulo seguinte, “Sorry”, que não por acaso é inteiramente construído em preto e branco, dando continuidade a essa transição entre dor, ruptura e reconstrução.
Texto: Arthur Anthunes
Revisão: Lucas Libório
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