Explicando "Formation" da Beyoncé!
- eolor
- 27 de abr. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de abr.
Explicando o epílogo de "Formation". Como o vídeo e a letra da Beyoncé resume e fecha TODOS os aspectos apresentados nos capítulos anteriores do "Lemonade".

(Fotos: Reprodução / Parkwood Entertainment)
“Formation” é a faixa que encerra Lemonade e, diferentemente dos demais capítulos, não se inicia com um poema. O clipe funciona como um epílogo, condensando e reafirmando os temas que atravessam toda a obra de Beyoncé. Ao mesmo tempo, seguindo a lógica de lançamento, a música também operou como uma espécie de prévia conceitual do que viria a ser o álbum, antecipando suas principais discussões estéticas, políticas e identitárias.
Este artigo foi construído com o objetivo de destacar detalhes do vídeo que podem ter passado despercebidos, além de contextualizar como “Formation” se integra à narrativa maior de Lemonade, funcionando como uma síntese potente de tudo o que foi desenvolvido ao longo do projeto.
A primeira coisa que preciso comentar, diz respeito à data de lançamento da música. "Formation" foi lançada antes de todo o álbum "Lemonade" no dia 6 de Fevereiro de 2016. Esse é o mês de celebração da história negra nos EUA.

A data também bate com o aniversário de Trayvon Martin e Sandra Bland, pessoas negras que morreram vítimas de brutalidade policial no país. Trayvon Martin morreu em 2012 depois de ser baleado por um vigilante do bairro, que o seguiu e atacou por considerá-lo "suspeito". Em 2015 e início de 2016, uma série de protestos estava acontecendo em resposta aos escândalos envolvendo a brutalidade policial.
Já Sandra Bland morreu na prisão da cidade de Waller em julho de 2015, três dias após ser presa sob suspeita de agressão, depois que uma tropa policial do estado a deteve por não sinalizar uma mudança de faixa. O fato reacendeu e muito o debate sobre a importância das vidas negras.

Toda essa introdução se faz necessária para explicar o contexto em que "Formation" foi lançada. Mike Will, produtor da música, informou que Beyoncé queria trazer a ideia da cultura de Nova Orleans para dentro da canção. Partiu dela a ideia de adicionar as fortes batidas populares à cidade em questão, no refrão. "Formation" abrange TODOS os tópicos com os quais Beyoncé lida no restante do álbum, desde a brutalidade policial, o movimento de empoderamento negro, a subversão dos papéis de gênero, sua ancestralidade, origens, irmandade e ênfase na representação de indivíduos afro-americanos. Nova Orleans é usada como plano de fundo de todo o "Lemonade" e já no início do vídeo, temos as cenas da cidade arrasada pelo furacão Katrina em 2005. Pra quem não sabe, 80% da cidade ficou submersa e completamente inundada. A inundação afetou principalmente a comunidade negra, que foi completamente abandonada pelo governo. Por isso, o vídeo abre com Messy Mya gritando: “O que aconteceu em Nova Orleans?”. Mya também foi vítima de violência policial e morreu aos 22 anos. Confira a compilação original abaixo, com as vozes de Mya, utilizadas no clipe.
O empoderamento negro explícito na letra da música abriu margem para a construção do que viria a seguir na história do álbum. No momento em que a Beyoncé canta: "Meu PAI do Alabama" e em seguida: "Minha MÃE da Louisiana", quadros rápidos são expostos no vídeo. Nestes quadros em questão, tanto o pai quanto a mãe da personagem (Beyoncé) são descritos como pessoas da realeza, pessoas poderosas. Não temos aqui a representação batida e hollywoodiana do negro escravizado e trabalhador de plantações, incapaz de promover mudança. A própria personagem demonstra ser alguém "importante".


Não somente a personagem principal aparenta ser da realeza, mas todos os negros e negras ao seu redor possuem essa característica. Como ela cita na letra da música, "Eu posso ser um Bill Gates negro em construção!". É o sonho americano que também aparece em "Daddy Lessons". Ao longo do vídeo, uma série de DIFERENTES personagens são mostradas dançando, na igreja, em eventos, passeando, de forma a revelar que pessoas comuns negras viviam - vivem - em Nova Orleans e foram completamente esquecidas pelo governo e autoridades durante o Katrina. A cena do garoto levantando a mão em frente aos policiais com a frase "pare de nos matar" está lá por uma razão.

A menção faz parte do Movimento de Michael Brown, que tomou conta dos EUA com o slogan: "Hands Up, Don't Shoot (Mãos pra cima, não atire)", em resposta à onda de violência policial contra os negros no país.
Um outro aspecto social que aparece no vídeo de "Formation" e em demais partes do "Lemonade" diz respeito aos 'Mardi Gras Indians', um "carnaval negro" característico de Nova Orleans, onde pessoas se fantasiam e saem às ruas. É influenciado pelos nativos americanos. A afirmação do amor à cultura negra vai se construindo durante todo o vídeo, quando a Beyoncé fala que ama o cabelo afro da filha dela, quando cita que ama ser uma Texas "BAMA" e aparecem cenas do time de basquete, ou quando ela cita seu carro 'El Camino', comprado com seu dinheiro.
Não posso deixar de citar que enquanto Beyoncé canta "eu sonho, trabalho duro, luto até conseguir", vemos simultaneamente um homem segurando a cópia de um jornal chamado "The Truth" (A verdade), onde a capa é uma fotografia de Martin Luther King com a legenda "More Than A Dreamer".

Referenciando o discurso de 1963, "Eu Tenho um Sonho", Beyoncé lembra ao público que o que antes era um sonho se tornou realidade. Apesar de o racismo ainda prevalecer nos EUA, a "Lei dos Direitos Civis de 1964" e os "Direitos de Voto de 1965" foram sim aprovados em resposta à luta constante. Nas palavras da própria diretora do vídeo, Melina Matsoukas:
Formation mostra em sua mensagem que triunfamos, sofremos, estamos nos afogando, sendo derrotados, dançando, comendo, mas acima de tudo, ainda estamos aqui!
Vários outros aspectos também merecem destaque, como o empoderamento feminino construído por Beyoncé ao longo do clipe e de todo o álbum, além das referências diretas aos “haters”, como na expressão “albino alligators” (jacarés de pele branca), que simbolizam forças que historicamente tentaram deslegitimar sua trajetória enquanto mulher negra.
O clipe se encerra de forma circular, retomando elementos do início. À medida que a música termina, ouvimos um trecho de Trouble the Water, documentário que retrata as consequências sociais do Hurricane Katrina: “Garota, eu ouço um trovão / Golly, olha aquela água, garota, oh senhor.” A imagem final, com a personagem submersa junto a um carro de polícia em New Orleans, funciona como uma metáfora potente das consequências da tragédia, evidenciando o abandono institucional e o desrespeito enfrentado pela população, especialmente a comunidade negra.
Texto: Arthur Anthunes
Revisão: Lucas Cranjo
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