Explicando "Love Drought" da Beyoncé!
- eolor

- 23 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de abr.
Como a Beyoncé trabalhou a unicidade, a escravidão e o amor em "Love Drought". Entenda como a união utópica negra definiu um dos capítulos mais fortes do "Lemonade".

(Foto: Reprodução/ Parkwood Entertainment)
Como já mencionado, Beyoncé define Lemonade como uma jornada de autoconhecimento feminino. “Love Drought” sucede o capítulo de acerto de contas apresentado em “Daddy Lessons” e integra o capítulo 7, “Reformation”. Aqui, a narrativa se volta para uma reflexão mais íntima sobre o amor, questionando sua resistência mesmo após camadas de dor, negação e ruptura.
O capítulo se inicia com imagens da personagem em um estádio, sendo observada por mulheres que vestem trajes semelhantes aos seus, reforçando a ideia de espelhamento e coletividade. Ao longo de toda a obra, há momentos em que somos levados para dentro da mente da personagem, criando uma tensão constante entre passado e presente. Em “Love Drought”, essa sensação se intensifica: quem assiste é praticamente transportado para um outro plano, onde o vídeo acontece como uma imersão nos pensamentos da personagem, quase como uma travessia por memórias ancestrais. Trata-se de um mergulho em sua própria história, em suas origens e em tudo aquilo que molda sua identidade.

Através desse retorno ao passado, marcado por flashes em preto e branco, somos levados ao subconsciente da personagem, o que ajuda a explicar as roupas com referências ao início do século XX. Há aqui um diálogo direto com a obra Daughters of the Dust, de Julie Dash, ainda que esse aprofundamento se desdobre melhor nos próximos capítulos. Neste momento, o essencial é perceber como o vídeo se inicia com mais um poema íntimo de Warsan Shire. Ao dizer “Por que você se considera não merecedor?... Você é o amor da minha vida!”, o texto abre espaço para o perdão, sugerindo que ele só é possível quando há um desprendimento real dos rancores e erros do passado.
A partir daí, já se estabelece uma conexão direta com o amor que será desenvolvido em “All Night”. A presença do dourado reforça essa transição simbólica, dialogando com o verso “you spun gold out of this hard life”, como se a personagem reconhecesse que, mesmo em meio às dificuldades, ainda é possível transformar dor em algo valioso.

Beyoncé escolhe aqui um dos momentos mais simbólicos de Lemonade para representar o fim dos rancores da personagem e o início de um novo ciclo. A cena dialoga diretamente com um episódio histórico ocorrido em 1803, na ilha de St. Simons Island, conhecido como Igbo Landing. Segundo os relatos, um grupo de africanos Igbo, capturados e levados em um navio negreiro, se rebelou, tomou o controle da embarcação e, ao chegar à costa, decidiu caminhar em direção ao mar.
Em vez de se submeterem à escravidão, eles avançaram pelas águas enquanto cantavam, transformando aquele gesto em um ato simultâneo de resistência e libertação. Aos poucos, todos se afogaram, numa decisão extrema que ficou marcada como símbolo de recusa à opressão. Dentro do contexto de Lemonade, essa referência ressignifica a cena: não se trata apenas de dor ou morte, mas de escolha, dignidade e reconexão com uma ancestralidade que atravessa a narrativa da personagem.


Todos escolheram a morte ao invés da escravidão. A cena em que Beyoncé marcha junto com outras mulheres negras para o mar faz referência direta a este acontecimento. Existem detalhes nas roupas das mulheres que simbolizam uma cruz, de forma a fazer referência ao trágico destino. No vídeo, o ato da personagem de levantar as mãos em grupo surge como o grito final de liberdade, que supera a morte. Em vários momentos do clipe, é possível perceber como a personagem se encontra num estado de quase morte, mas sempre com tons dourados ao seu redor, de forma a transparecer uma ideia de força e luz.

A própria descrição do ambiente onde o clipe se desenvolve nos remete a um local pantanoso, com descrições folclóricas da terra Igbo. É a representação do cenário onde ocorreu a "marcha sobre as águas".
Outro ponto a ser mencionado é que, em vários momentos, temos a personagem fisicamente ligada a cordas, resistindo à tração.


É uma forma de expressar a resistência à escravidão. Percebam que em todo o vídeo, temos uma personagem ligada a outras mulheres. A unicidade feminina, mesmo em momentos difíceis. É a representação da utopia negra, do apoio mútuo e da luta por justiça.
O vídeo se aproxima do fim com o surgimento de rosas, com a personagem imersa em dourado, mas sem sorrisos. É o final glorioso, mas trágico. Na mente da personagem, é a espera pelo início de um novo ciclo juntamente com a morte de seus traumas.
O vídeo se encerra em mais um trecho em preto e branco, marcando o final do capítulo e o retorno para o presente da personagem. Já temos, nesse ponto, o início do capítulo 8, para continuar lendo sobre “Forgiveness” (Perdão) com “Sandcastles, clique aqui.
Texto: Arthur Anthunes
Revisão: Lucas Cranjo
eolor



Meu Deus, muito obrigada por explicar✨️🫶