Explicando "Sorry" da Beyoncé!
- eolor

- 17 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de abr.
Entenda as referências da mitologia africana, o empoderamento feminino e a relação construída sobre a perspetiva da infidelidade no “Lemonade”.

(Fotos: Reprodução/ Parkwood Entertainment)
Para quem acompanhou a análise de “Don’t Hurt Yourself”, fica claro que a personagem “morre” em pensamento ao final do vídeo. É a partir dessa ruptura que chegamos ao quarto capítulo de Lemonade, “Apathy” (Apatia), dando continuidade direta à narrativa construída por Beyoncé.
Nesse ponto do álbum visual, somos apresentados a uma figura que, após ser traída, atravessa uma morte simbólica. Trata-se de uma suspensão emocional, um estado em que sentir passa a ser quase impossível. O capítulo se inicia com o poema “Dust to Sad Chicks”, de Warsan Shire, no qual o marido lamenta a perda da amada em pleno funeral. A cena, no entanto, não fala de uma morte literal, mas da consequência direta de suas ações: ele chora a ausência de uma mulher que ainda está viva, mas que já não existe da mesma forma. Leia um trecho:
"Então, o que você vai fazer agora que me matou? Aqui jaz o corpo do amor da minha vida, cujo coração quebrei, sem uma arma na minha cabeça. Aqui reside a mãe dos meus filhos, vivos e mortos."

O marido em questão toma pra si que tudo que ocorreu, foi de total responsabilidade sua, ninguém o forçou a trair sua mulher. O trecho citado "mãe dos meus filhos vivos e mortos" faz referência à vida pessoal de Beyoncé, o filho que ela perdeu no aborto vivido em meados de 2010 e também seus filhos vivos.

Jay-Z inclusive cita esse trecho em seu álbum "4:44", tido por muitos como uma resposta ao "Lemonade" da Beyoncé. Em uma das músicas ele diz: "Eu vi a inocência deixar seus olhos / eu ainda lamento essa morte, peço desculpas por todos os que não nasceram". Fica claro pra quem escuta, que se trata de uma fala pessoal. Neste sentido, Beyoncé continua
recitando o poema:
"Sua mortalha é a solidão, seu deus estava ouvindo. Seu paraíso seria um amor sem traição."
É interessante perceber que, dentro dessa lógica simbólica, há um certo alívio nessa “morte”: nesse plano, essa mulher não será mais traída e encontra outras mulheres que a acolhem e a guiam. É justamente nesse momento que o vídeo nos transporta para um ritual dentro de um ônibus, onde a personagem é conduzida por figuras femininas marcadas pela estética da Sacred Art of the Ori, uma tradição espiritual de origem iorubá ligada à essência e ao destino individual. Essas mulheres, com expressões contidas e melancólicas, funcionam como guias nesse processo de travessia, acolhendo a dor e transformando-a em rito.


A arte em questão, feita pelo artista nigeriano Laolu Senbanjo, utilizou corpos femininos para retratar a sororidade e o sentimento mútuo de aceitação. No contexto do vídeo, são "forças" que ajudam a personagem a se encontrar. O poema se encerra e somos transportados para a casa de campo (a mesma citada no artigo inicial sobre Pray You Catch Me), constantemente apresentada no conjunto do "Lemonade". É a representação da "casa grande", porém sob um aspecto diferente, apresentando a dualidade do presente e do passado, que verificamos na obra o tempo todo.

Com o início da música, somos conduzidos ao interior da casa, onde Beyoncé aparece sentada na cadeira principal, ocupando um lugar de centralidade e comando. Nesse momento, surge mais uma referência interessante: a cena dialoga com a icônica capa de Serena Williams para a revista Sports Illustrated, em dezembro de 2015, quando foi eleita “Atleta do Ano”. A composição visual e a postura evocam essa imagem de poder, controle e reconhecimento.
A presença da própria Serena no vídeo reforça ainda mais essa leitura, mas longe de qualquer construção sexualizada. Aqui, o que se destaca é a força. Tanto nos enquadramentos de Serena quanto nos de Beyoncé, há um olhar firme, dominante, que transmite autoridade e autossuficiência. É como se ambas representassem, cada uma em seu campo, a ocupação de espaços historicamente negados, afirmando que mulheres negras não apenas estão presentes, mas liderando, redefinindo e dominando esses territórios.


O clipe segue com mais referências. A imagem das mulheres alinhadas ao longo do corredor, sentadas nas cadeiras, evoca os "sit-ins", um estilo popular de protesto contra a segregação, no qual a maioria dos jovens negros se sentava e se recusava a sair do local em que se situavam, lutando contra o racismo.

A “aparência” do vídeo sugere uma série de elementos importantes além da morte. A dualidade do preto e branco evoca noções de certo e errado, vinculadas à narrativa de infidelidade da música. Além disso, ao remover a coloração, indica-se que a cor não é o foco central; o preto e branco passa a ser associado à memória, à história e ao passado. A tinta branca, as longas tranças e as miçangas nas mulheres também têm relevância, pois remetem a referências ancestrais e à origem africana dos afro-americanos.
No meio do vídeo, somos levados à personagem sobre o ônibus, onde antes ela estava no interior. Agora, assim como as demais mulheres, ela também possui pinturas no rosto e, juntas, entoam “Boy Bye” (Adeus, garoto), reforçando mais uma vez a união feminina.
Em seguida, vemos Beyoncé retratar Nefertiti, rainha do Egito, em mais uma imagem de poder feminino. Outro ponto interessante da música é a citação de “Becky”. No vernáculo afro-americano, o termo é usado para se referir a uma mulher branca considerada “básica”, e aparece como uma alusão à traição associada a Jay-Z.
A canção vai se encerrando com a Beyoncé (personagem) reafirmando que ela é forte o suficiente para cuidar de sua filha sozinha e que força não lhe falta para seguir sua vida. Assim, o capítulo da “apatia” se encerra. É uma afirmação de que a personagem NÃO está pronta para perdoar seu amante pelo erro cometido. Como dito anteriormente, é a morte de um sentimento forte, mesmo que de forma momentânea.
No capítulo seguinte, essa personagem vai em busca do auto conhecimento, da busca pelo prazer, tentando se encontrar no mundo após a desilusão. Por isso surge “6 Inch”.
Texto: Arthur Anthunes
Revisão: Lucas Cranjo



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